MARACATU

Maracatu é a mais tradicional dança dramática de origem afro-descendente presente na cultura do povo cearense, configurando um cortejo formado por baliza, porta-estandarte, índios brasileiros e nativos africanos, negras e baianas, negra da calunga, negra do incenso, balaieiro, casal de pretos velhos, pajens, tiradores de loas e batuqueiros, em reverência a uma rainha negra e sua corte real. No Ceará, o povo caboclo usa uma mistura de fuligem, talco, óleo infantil e vaselina em pasta para tingir o rosto de negro.

O ritmo do maracatu cearense é apresentado por um grupo de percussão no qual incluem-se caixas, utilizadas sem esteira para acentuar a batida grave, surdos, bumbos, ganzás, chocalhos e triângulos, também chamados de ferros, confeccionados com molas de transporte pesado, o que lhes confere um timbre característico e uma sonoridade acentuada, destacando-se dos demais instrumentos.

O macumbeiro ou tirador de loas é quem canta as toadas, nas quais são geralmente enfocados temas ligados à cultura, à religião e à história da África e do Brasil.

O CORTEJO

1. BALIZA Abre o desfile, marcando o passo ao lado do porta-estandarte e carrega a baliza entre os dedos. Veste-se com colete, turbante, saiote ou calção e sua fantasia tem as cores oficiais de seu maracatu. 2. PORTA – ESTANDARTE Carregando o estandarte, marca o passo e anuncia a presença do maracatu. 3. ESTANDARTE Peça confeccionada em cetim ou veludo, tem franjas ou rendas na borda inferior e traz, pintado ou bordado no centro, o símbolo identificador do maracatu. 4. LAMPIÕES Adereços de mão, representam a luz e o fogo no caminho do cortejo. Combinam a herança da liturgia católica das procissões com o culto ao fogo, simbolizando a necessidade real dos escravos de manter, nas senzalas, a chama sempre acesa. 5. ÍNDIOS Desfilam em filas indianas e ladeiam o estandarte. Em Fortaleza têm origem nos caboclos ou cordão de índios de penas, participantes do carnaval de rua na década de 1950. 6. NEGRAS E BAIANAS Também desfilam em filas indianas e marcam a segunda parte do cortejo real, antecedendo o balaieiro, os pretos velhos e a corte real. 7. NEGRA DA CALUNGA Negra que conduz a boneca. As duas geralmente usam roupas idênticas. 8. NEGRA DO INCENSO Negra que conduz o incenso ou defumador, usado para abrir os caminhos e perfumar o itinerário do cortejo. 9. BALAIEIRO Conduz na cabeça um balaio carregado de frutas e legumes e evolui com graça, lembrando os antigos escravos de ganho, ao mesmo tempo em que inclui um elemento ecológico no desfile. 10. BALAIO Cesto de palha, com o formato de alguidar, onde são conduzidas frutas e legumes, configurando oferendas a entidades espirituais protetoras do maracatu. 11. PRETOS–VELHOS Simbolizam a sabedoria e a experiência dos mestres mais idosos nas tribos africanas e nos cultos afro-descendentes. 12. CORTE Representada pelo Príncipe, a Princesa, o Rei e a Rainha, figura principal, em honra de quem o cortejo se apresenta. Também fazem parte as Damas de Honra, também chamadas de Damas do Paço, as Mucamas e os Vassalos. 13. LEQUE Carregado por um vassalo, tem a função de reverenciar a Corte, pairando sobretudo em torno da Rainha. 14. CHAPÉU DE SOL (SOMBRINHA) Redondo, colorido e sempre girando, é usado para proteger a Rainha. 15. BATUQUEIROS Tocadores de tambores (caixas, usadas sem esteiras para acentuar o som grave, surdos e bumbos) e ferros (chocalhos, triângulos e ganzás), executam a marcação para o canto e a evolução do maracatu. 16. TIRADOR DE LOAS OU MACUMBEIRO Apresenta a loa (toada) do maracatu. Sempre apoiado pelo coro do cordão de negras, procura estimular os brincantes a cantar durante o desfile.
Oriundo das coroações de Reis do Congo, acontecidas a partir do século XVIII nas igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos espalhadas por Fortaleza e cidades interioranas como Sobral, Icó, Aracati e Crato, os maracatus foram descritos pelo escritor Gustavo Barroso em seus desfiles pelas ruas da capital cearense ao final da década de 1880. Conforme registrado no livro Idéias e Palavras, existiam os maracatus do Morro do Moinho (Arraial Moura Brasil, por trás da Estação Central), do Beco da Apertada Hora (atual rua Governador Sampaio), da rua de São Cosme (atual rua Padre Mororó), do Outeiro (Aldeota antiga, atual região do Colégio Militar) e o do Manoel Furtado.

O maracatu chegou ao carnaval, desfilando oficialmente como agremiação carnavalesca, em 1937, através de um convite feito pelo então Rei Momo Ponce de Leon ao Maracatu Az de Ouro, fundado em 1936 por Raimundo Alves Feitosa, compositor e tirador de loas também conhecido como Raimundo Boca Aberta.

A partir da década de 1950 surgiram outros grupos como Estrela Brilhante, Az de Espada e Leão Coroado, agremiações de grande destaque nos desfiles carnavalescos, contribuindo com a riqueza de seus cortejos para a consolidação do maracatu como uma das mais importantes expressões artísticas e culturais do povo cearense.
A história do carnaval em Fortaleza registra um expressivo número de grupos, muitos deles extintos, como é o caso dos maracatus Rancho Alegre, Nação Africana, Rei de Espada, Rei dos Palmares, Nação Uirapuru, Nação Gengibre, Nação Verdes Mares e Rancho de Iracema. Atualmente participam do carnaval de rua os maracatus Az de Ouro, Rei de Paus (fundado em 1960, com o nome de Ás de Paus), Vozes da África (fundado em 1980), Nação Baobab (fundado em 1995), Rei Zumbi (fundado em 2001), Nação Iracema (fundado em 2002), Kizomba (fundado em 2003) e Nação Fortaleza (fundado em 2004).

Livros para saber mais...

  • Ao Som da Viola - Gustavo Barroso
  • A Abolição no Ceará- Raimundo Girão
  • As Irmandades Religiosas no Ceará Provincial - Eduardo Campos
  • Os Negros em Portugal, Uma Presença Silenciosa - José Ramos Tinhorão
  • Reis Negros no Brasil Escravista - História da Festa de Coroação de Rei Congo - Marina de Mello e Souza
  • Danças Dramáticas no Brasil - Mário de Andrade