Quem já deu mais de sessenta voltas ao redor do sol encontra
grande agrado e gosto em recordar o passado. Relembrando sucessos antigos, dirigimo-nos
aos velhos porque estes nos entendem. Latini latine loquor. Os moços, porque são
moços, não encontram interesse algum em coisas muita caras aos velhos; entretanto,
aqueles que conseguiram acompanhar por largo tempo esta grande borboleta que chamamos
Terra, depois de muitas voltas, irão, por sua vez, comentar com saudade e interesse fatos
mínimos de hoje ou costumes e usanças, que o tempo haja devorado.
Melo Morais
Filho, no seu primoroso livro sobre Festas e Tradições Populares do Brasil,
descreve com pena erudita e poética os folguedos com que os nossos maiores celebravam os
Natais, a Semana Santa, os casamentos, o Dia de Finados, etc. Entre os folguedos do Natal,
pinta com vivas cores o Auto dos Cucumbis, da Bahia, também chamados Congos nas outras
províncias do Brasil; e resume, nestes termos, o entrecho do baleto dos Cucumbis.
"Depois
da refeição lauta do Cucumbi, comida de que usavam os Congos e Munhambanas, nos dias da
circuncisão de seus filhos, uma partida de Congos põe-se a caminho, indo levar à Rainha
os novos vassalos que haviam passado por essa espécie de batismo selvagem." "O
préstito, formado por príncipes e princesas, augures e feiticeiros, intérpretes de
dialetos estrangeiros e inúmero povo, levando entre alas festivas os mametos circuncisados
com lasca de taquara, é acometido por tribo inimiga, caindo flechado o filho do
Rei."
"Ao
aproximar-se o cortejo, recebendo a notícia do embaixador, ordena o soberano que venha à
sua presença um afamado adivinho, o feiticeiro mais célebre de seu reino, impondo-lhe a
ressurreição do príncipe morto." "Ou darás a vida a meu filho, diz ele, e
terás em recompensa um tesouro de miçangas e a mais bela das mulheres, ou não darás e
te mandarei degolar." "E aos sortilégios do feiticeiro o morto levanta-se, as
danças findam, ultimando a função ruidosa retirada na qual os Cucumbis cantam o Bendito
e diversas quadras populares."
Quem assistiu
aos nossos antigos Congos e deles se recorda verá quão diferentes eram dos Cucumbis da
Bahia e do Rio. O Auto dos Cucumbis tinha uma seqüência, ao passo que o dos nossos
Congos não tinha um seguimento razoável; e certas cantarolas não vinham a propósito do
que se fazia em cena. Eram precisamente estes disparates, pontilhados de frases idiotas,
que faziam rir a bom rir as pessoas que assistiam a essas folganças, as quais
deslumbravam os meninos pelos vestuários reluzentes dos personagens.
A Corte do
nosso Rei de Congos era muito reduzida em comparação com a dos Cucumbis." Tínhamos
o Rei, o Príncipe Sueno, o Embaixador, o Secretário, os Congos (soldados e cantores) e
os Conguinhos, meninos que reforçavam o coro dos Congos. Ao todo umas vinte ou trinta
figuras. O Rei trazia coroa rutilante, manto de belbutina escarlate, colete verde,
calções azuis e calçava sapatos de entrada baixa. À cintura trazia uma espada.
O Príncipe
trajava de modo idêntico, bem como o Secretário, que usava um chapéu de abas largas
ornado de conchas brilhantes. O Embaixador se apresentava de capa e espada; e os Congos
vestiam uma espécie de bolero e um saiote curto, armado ao modo do das bailarinas.
Acompanhavam as cantorias com pequenos maracás; e um tambor as acompanhava também, mas,
às vezes, com tal estrondo que não deixava se perceber bem o que se cantava.
Os
vestuários eram recamados de vidrilhos, lantejoulas e espelhinhos, que brilhavam à luz
vermelha dos archotes e dos candeeiros de azeite de carrapato. Que deslumbramento para os
meninos da pequena e moderada Fortaleza de outrora! De lembrança e por informações de
pessoas do tempo reconstruímos, aproximadamente, os Congos, como eles se apresentavam
até 1880.
Por muitos
anos foi Embaixador o preto Joaquim Xavier, que tinha perdido um braço no Paraguai. No
seu papel falava com autoridade formidável. Fazia lembrar o célebre Ronqueira, de quem
ainda falaremos. Também por muito tempo fez de prinspo Sueno outro preto a quem
chamavam Putrião, por causa de um lobinho que tinha no nariz e que lhe dava, quando
olhado de perfil, semelhança com esse pássaro do Amazonas.
O bom preto
se molestava com este apelido; e como em certa noite lhe atirassem do meio do povo,
armou-se um barulho enorme: houve musga de pancadaria em que trabalharam, de rijo,
as espadas e facões dos Congos. A polícia proibiu então que eles continuassem a dançar
com estas armas, permitindo-lhes somente que o fizessem com facões e espadas de pau. Uma
desonra!
Xavier e
Putrião, que aliás não eram mais homens, tais empenhos moveram que a autoridade
policial revogou sua ordem. Pelos anos de 1850 a 60 ainda conservavam muitas palavras de
línguas africanas, que misturavam com português estropiado. O Rei, assentando-se no
trono, abria o Auto dizendo com voz de araponga:
Rei - Ê Gonguê!
Coro - Ê Gongá
Rei - A lerê lerô lerê
Vamo lá, vamo lá tê
Alevanta mezi fi
Qui tem munto qui dizê
Vai fazê a ginitrinha
Bem fêta e bem fazida
Qui estes necessitados
Fique de boca embambacato
E de oio engrangarato.
E nesta meia
língua continuava a representação, ao som de melopéias bárbaras, de maracás e de
ganzás.
Mas já por
1880 a cantoria dos Congos havia perdido esse tom acentuadamente africano, já diziam suas
prosas em algaravia em que predominava o português e aproveitavam, para seus cantares,
certas solfas que andavam no ar. Desde o princípio, os Congos dançavam pelo Natal,
saindo pela primeira vez na Noite de Festa, quando iam dançar em frente à Igreja do
Rosário, em honra à Virgem desta invocação, depois do que iam representar, a chamado e
mediante paga, em frente das casas de famílias. Em caminho para o Rosário cantavam:
Secretário - Os
pretinhos dos Congos
Pra onde vão?
Coro - Nós vamo pro Rosário
Festejá a Maria.
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