Njinga Mbandi, Ngola Jinga, rainha dos Jingas, Dongo-Matamba em
Angola, morreu há trezentos anos. Encontro-a viva, citada, contemporânea, de Cabinda a
Benguela, de Luanda às terras de Lunda. Indicam-me os lugares onde viveu, caminhos
percorridos, vestígios do seu pé tornados ilustres nas pedras de Pungo Andongo, Matamba,
onde residiu, Kifuangondo, no rio Bengo, que lhe deve a denominação. Lendas, anedotas,
invenções consagradoras ressuscitam a velha soberana indomável, astuta, obstinada,
opondo-se ao irresistível preamar dominador e branco.
Está,
inarredável, na História de Angola e nos fatos da conquista portuguesa na África
Ocidental. Fisionomia móbil, tenaz no desígnio de resistir, de salvar seu povo,
governando-o como ele amava ser governado, com guerra, sangue e festa, em todas as
ocasiões julgadas oportunas para combater, atirou seus pretos contra os canhões
lusitanos. Rendeu-se várias vezes. Ficava serena, gentil, concordadora, até que
brilhasse a hora da reação. Erguia o braço de comando e os batalhões negros
atiravam-se contra os portugueses. Aquela onda angolana elevava-se, fremente de ódio,
percutindo a rocha das Quinas, a espada d'El Rey, sem evitar um momento, infalível,
teimosa, infatigável, na insistência do heroísmo ineficaz. Nos derradeiros anos,
exausta, doente, vencida, voltou a batizar-se, ouvindo os capuchinhos italianos, sonoros e
gesticuladores. Morreu curvada, anciã veneranda, andando vagarosa, cabeça firme, olhos
manhosos, inquietos, perscrutando a possibilidade de reacender a revolta e combater. Tinha
82 anos. Ninguém conseguiu esquecê-la, brancos, pretos, mestiços, estrangeiros,
nativos. Está nos livros impressos e na literatura oral. Por onde passou foi deixando a
impressionante marca de sua personalidade enérgica, invulgar, poderosa. Falam-me de sua
pessoa como de uma entidade presente, encontrável, atual, numa menção incontida de
evocação, um nome pronunciado pelos lábios de todas as classes, como nenhum outro no
Reino de Angola.
Instalou-se
como uma soberana autêntica, na legitimidade de todas as tradições africanas, luxo,
armas, festins, invasões de fronteiras, massacres de suspeitos, consolidação militar.
Não eram assim os césares de Roma e os basileus de Bizâncio, Luís XI da França, D.
João II de Portugal, Filipe II de Espanha? A tática ficou melhorada e tranqüila. Não
enfrentava o poder português em Angola mas os feudatários do governador. Ia roendo as
raízes do domínio lusitano. Dongo teve o seu rei vencido e as ilhas de Queinalonga
devastadas. O governador Fernão de Sousa interrompeu as manobras de Jinga,
derrotando-lhes as tropas eufóricas de vinho de palma e ardor belicoso. Esmagou-as em
Quilombo e na áspera jornada de Quina Grande dos Ganguelas. Aprisionou as duas irmãs,
tão queridas da rainha, as damas Cambe e Funji, enviadas para Luanda e batizadas por
Bárbara e Engrácia. Jinga desaparecera. Estava no leste, território dos Songos,
Massongos, Bassongos, Cassongos, Tussongos, companheiros de aliança, oculta no labirinto
do Luando e do Cuango. Até 1632 ficou em aparente tranqüilidade. Recarregava as
baterias. Em 1635 o governador Francisco de Vasconcelos da Cunha aquietou-a habilmente,
mandando presentes, saudando-a como amiga. Jinga arredou seus guardas dos caminhos da
circulação mercantil, não mais assaltou os comboios e conciliou-se com os sobas,
maiores e menores. Sua fortaleza eram as pedras altas e negras de Pungo Andongo.
Ficou uns
tempos em Luanda, para ela cidade estranha. Voltou para as terras distantes, para o mato
querido, a palhoça que era palácio aos olhos dos derradeiros soldados de suas
arrancadas. Nascera em 31 de janeiro 1582. Em 1657 converteu-se novamente ao catolicismo.
Restituíram-lhe algumas posses. Jinga possuía a terra e as vidas que quisesse. Os negros
eram apenas usufrutuários. Faleceu a 17 de dezembro de 1663. É a única soberana de toda
a África que, sem jamais saber da existência do Brasil, continua na memória brasileira,
íntegra, feroz, na autenticidade do tipo voluntarioso, decisivo, legítimo, com a
majestade da voz e da vontade ilimitadas e objetivas. Perpassam nos autos nomes que não
materializam corpos reais de ação e de energia. Jinga vive.
Comparecia
nos préstitos oficiais e votivos. Em junho de 1818 von Martius assistiu no Tijuco,
Diamantina, Minas Gerais, o cerimonial pela aclamação do rei D. João VI, descrevendo-o
na Viagem Pelo Brasil: É costume dos negros do Brasil nomearem todos os anos
um rei e sua corte. Esse rei não tem prestígio algum político nem civil sobre os seus
companheiros de cor; goza apenas da dignidade vaga, tal como o rei da fava, no dia de Reis
na Europa, razão porque o governo luso-brasileiro não põe dificuldade alguma a essa
formalidade sem significação. Pela votação geral, foram nomeados o REI CONGO e a
RAINHA XINGA, diversos príncipes e princesas, com seis mafucas (camareiros e
camareiras), e dirigiram-se em procissão à igreja dos pretos. Negros, levando o
estandarte, abriam o préstito; seguiam-se outros levando as imagens do Salvador, de São
Francisco, da Mãe de Deus, todas pintadas de preto; vinha depois a banda de música dos
pretos, com capinhas vermelhas e roxas, todas rotas, enfeitadas com grandes penas de
avestruz, anunciando o regozijo, ao som de pandeiros e chocalhos, do ruidoso canzá e da
chorosa marimba; marchava à frente um negro de máscara preta, como mordomo, de sabre em
punho; depois, os príncipes e princesas, cujas caudas eram levadas por pajens de ambos os
sexos; o Rei e a Rainha do ano antecedente, ainda com diamantes, pérolas, moedas e
preciosidades de toda espécie, que haviam pedido emprestado para essa festa; a rabadilha
do séquito era composta de gente preta, levando círios ou bastões forrados de papel
prateado.
Nos CONGOS ou
CONGADAS pelo Nordeste do Brasil aparece seu nome soberano, dispondo das vidas,
determinando guerras, vencendo sempre. Reaparece lembrando, não as campanhas contra os
portugueses mas as excursões militares aos sobatos vizinhos, régulos do Congo, Cariongo
em Ambaca. Conste ou não da História, Penélope sombria, constará sempre de uma
estória vulgar nas cantigas brasileiras contemporâneas, no enredo dos CONGOS:
Mandou matar meu
Rei, meu senhor!
E quem mandou foi Rainha Jinga!
E a
declamação: "Senhora Rainha Jinga, mulher de Camumbira, de Moxaritatiguári,
senhora Dona Flor de Cambange que passeia em terras de gentes Guinés e faz anos que não
vem cá!"
O Embaixador,
expressão maior no alto dos CONGOS, Henrique Rei Cariongo, o Príncipe Sueno, Suana,
Suana Mulopo, um dos herdeiros do Muata-Cazembre, Imperador dos Lundas, Suana-Murôpe,
segundo o major Gamito, são inferiores, derrotados, arruinados, aprisionados. Só a
Rainha Jinga conserva a plenitude dominadora, incontestável, indiscutível.
Os escravos
idos de Angola levaram a odisséia tempestuosa da rainha negra de Matamba. Todo o século
XVIII brasileiro exigiu a mão escrava de sudaneses e bantos para a mineração, catas de
diamantes e alargamento de canaviais. Os governos de D. João V, D. José e D. Maria I
tiveram o Brasil como uma fonte produtiva. Com D. João V o ouro. Com D. José as
matérias primas, companhias de comércio. Com Maria I o mercado consumidor e exportador,
suprindo em espécie e moeda o tão amargurado sonho da Índia Portuguesa. Para todo esse
mundo, o Brasil no seu contorno territorial presente, o escravo era indispensável. Vieram
aos milhões. Notadamente de Angola, fornecedora e geograficamente entreposto de embarque
das peças.
Em cada
navio, invisível e lógica, embarcava a Rainha Jinga... |