Os tambores estão afinados para a festa. Descem os da macumba, da
umbanda, do catimbó, o povo dos terreiros da periferia da cidade, e vão todos à beira
da praia, saudar a mãe Iemanjá, pedir a bênção, cantar e dançar. Pés descalços, o
samba é animado na areia quente, que a festa começa ainda de manhã, o sol queimando, um
mergulho até que é bom. Tibungo.
Vem gente de
todo canto, de todo jeito. Desde que a festa acontece, por criação natural do povo de
espírito afro-brasileiro na terra do Zé de Alencar, é um ruge-ruge danado. Nos tempos
antigos, a festa ficou restrita à Praia do Futuro, quando o pessoal dos terreiros ia se
reunir na parte velha da praia, entoando pontos, fazendo soar os atabaques, o troar dos
tambores, o transe. Há alguns anos, além da ocupação de um trecho da Praia de Iracema,
a realização do evento vem sendo feita pela União Espírita Cearense, que congrega
adeptos de todos os credos, possíveis e imagináveis. Organizados em caravanas, com
transporte geralmente conseguido em sistema de mutirão, quando não cedido por algum
político ou candidato, os adeptos de Iemanjá aproveitam a oportunidade para festejar com
a ocupação do espaço público. Estão na beira da praia, mostram aos passantes e à
cidade o que na maior parte do tempo celebram em casas com pouquíssimo conforto,
cubículos espalhados pelos mais diversos bairros da cidade, onde habitam muitas das vezes
em condições de precariedade absoluta. Nestas condições de adversidade e precisão,
acontecem os rituais que misturam a religiosidade afro-descendente e a pajelança de
nossos índios. Os terreiros abastados são ainda muito poucos, poucos os pais-de-santo em
condições de vida razoável. A maior parte da massa que participa do festejo é mesmo de
gente da luta, que junta os tostões e parte pra vida, precisando crer em alguma coisa pra
não sucumbir de vez. Bufo.
E vai
chegando o povo, do Bom Jardim, do Tranquedo, do Bom Futuro, da Maraponga,
Parque Araxá, Itaoca, Serrinha, Álvaro Weyne, Parangaba, Porangabussu, Bela Vista,
Antônio Bezerra, Otávio Bonfim, Floresta, Benfica, Mondubim, Messejana, Carlito
Pamplona, Canindezinho, Cajazeiras. Chegam os do Amadeu Furtado, do Km 8, Pan Americano,
Barra do Ceará, Jardim Guanabara, Conjunto Palmeiras, Zé Walter, Passaré, Pici,
Pirambu. Vem o povo da Gentilândia, da Braga Torres, Jacarecanga, Jurema, Jardim Jatobá.
E chega gente, chega gente, chega gente.
Gente que só
quer feliz, o dia inteiro na praia, entoando loas, saudando a mãe das águas, Iemanjá, a
rainha do mar.
Eparrêi!
DONA JANAÍNA,
PRINCESA DE AIOCÁ
Calé Alencar & Afrânio Rangel
Loa do Maracatu Nação Baobab - Carnaval de 2004
A minha guia é
de conchas do mar
Linda sereia
Minha mãe Iemanjá
O Meu maracatu, Janaína, é Nação Baobab
Meu maracatu, Janaína, é Nação Baobab
Eu sou a terra girando
Eu sou a força, a paz e o amor
Eu sou a luz
Pra luzir no seu caminho
Pra benzer o seu destino
Sou Princesa de Aiocá
Sereia, sereia
Sereia do mar
Sereia que vive nas ondas do mar
Vem cá, sereia
Sereia, vem me buscar
Sereia, me leva pras ondas do mar
Dona Janaína
Iemanjá
Rainha do Mar
Princesa do Mar
Princesa de Aiocá
Sereia
Sereia do Mar
Olôxun
Dona Maria
Sereia Mucunã
Inaê
Marbê
Dandalunda
Dona Janaína, Princesa de Aiocá. |