Seus pais valeram-se de Nossa Senhora do Rosário, protetora dos
negros, e o menino foi salvo. Aos oito anos, após a morte do pai nos seringais da
Amazônia, sua mãe desentendeu-se com um Juiz de Direito e a família teve que abandonar
a cidade. O menino Francisco embarcou no navio Tubarão, pertencente ao comendador
português José Raimundo de Carvalho, permanecendo nas atividades a bordo até os 20
anos, época em que aprendeu a ler e a escrever e resolveu fixar-se em Fortaleza, casando
com Joaquina Francisca, a quem conhecera ainda em Aracati, tendo com ela uma filha de nome
Francisca.
Chico da
Matilde conseguiu nomeação para o cargo de 2o. Prático da Capitania dos
Portos, em 1874, orientando os navios na atracação junto ao cais do porto. Ao mesmo
tempo, suas atitudes levaram-no a se tornar uma espécie de líder dos jangadeiros que
faziam o transporte dos escravos para os navios e para a terra. Nesse período, aderiu à
causa abolicionista e, juntamente com seus colegas, decretou a primeira intervenção
política impedindo o comércio de negros no Ceará.
Durante os
grandes períodos de estiagem, nos anos de 1877 e 1879, quando atuava como voluntário no
socorro às vítimas da seca, o Dragão do Mar conheceu João Cordeiro, homem de
convicções republicanas e antiescravista que seria um dos líderes da Sociedade Cearense
Libertadora, de cujo estatuto constava o seguinte: Artigo 1o. Um por
todos e todos por um. § único: A sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu
alcance. Sala de Aço, 30 de janeiro de 1881. No ano seguinte, o Dragão percorre várias
cidades do interior cearense, em campanha abolicionista, ao lado de José do Patrocínio,
o Tigre da Abolição, que cria, nessa ocasião, o epíteto Ceará, Terra da Luz,
como homenagem ao movimento abolicionista em terras alencarinas.
Após a
vitoriosa campanha de 25 de março de 1884, data que marca a abolição da escravatura no
Ceará, quatro anos antes da Lei Áurea que libertou os escravos em todo o território
nacional, o Dragão do Mar seguiu para o Rio de Janeiro, sendo recebido pelo Imperador Dom
Pedro II no Paço de São Cristóvão, onde foi alvo de homenagens por seus atos de
bravura. Do Rio, escreveu à mulher, Joaquina Francisca, na chegada triunfal ao Rio de
Janeiro: ¨O seu velho está tonto com as festas e com os cumprimentos de tanta gente
importante¨.
Em 1890, o
Dragão do Mar foi promovido a 1º Tenente Honorário da Armada e ocupou o
posto de Major-Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando, na Guarda Nacional do
Ceará, título que lhe foi auferido por João Cordeiro, ao tempo em que este ocupou a
Presidência do Estado. No ano de 1902, casou-se pela segunda vez, com Ernesta Brígida,
sobrinha de João Brígido. Passou a freqüentar, meio a contragosto, as reuniões
literárias e a participar de cavalhadas nos subúrbios de Fortaleza. Organizou lapinhas e
uma capela em devoção de Nossa Senhora dos Navegantes. Por esses tempos, deixou de
participar dos grupos de reisado, composto de moças e rapazes acompanhados por flautas e
cavaquinhos, que percorriam as ruas do Seminário da Prainha, entoando os versos :
"aqui estou
em vossa porta
em figura de raposa
não vos venho pedir nada
mas o dar é grande coisa"
Em 1904, aos
65 anos, o Dragão do Mar teve ativa participação na Revolta dos Catraieiros, movimento
de pescadores e chefes de família em reação ao fato de haverem sido sorteados para o
serviço militar, tendo que seguir para o sul do país a bordo do navio Maranhão. O
edital de convocação havia sido publicado com apenas 72 horas de antecedência do
embarque, pegando a todos de surpresa, muitos deles com oito, dez filhos, e alguns já
avós. Por toda a Praia do Peixe, a antiga Praia de Iracema, ouviu-se a ordem do Dragão
do Mar: Ninguém embarca!
O governo
cumpriu a ameaça de embarcar os amotinados à força, com uma rajada de tiros e uma carga
de baionetas. Dos 200 homens, sobraram 90 feridos. Queremos justiça!, assim reagiu o
Dragão do Mar, liderando uma marcha que foi bater nos jardins do Palácio da Luz, sede do
governo. O presidente, Pedro Borges, acuado, ordenou a volta da tropa aos quartéis.
O Dragão do
Mar passou a sofrer novas perseguições, sendo preterido no serviço de praticagem, e
viu-se obrigado a intensificar suas atividades no comércio, vindo a falecer no dia 6 de
março de 1914, em meio aos ataques dos jagunços do Padre Cícero com o intento de
derrubar o presidente Franco Rabelo.
Francisco
José do Nascimento, o Dragão do Mar, é um dos mais importantes personagens da história
do Ceará, tendo incluído seu nome na galeria dos heróis nacionais na luta pela
libertação dos escravos.
DRAGÃO DO MAR
Calé Alencar
Hoje eu sou
Dragão do Mar
No coração da cidade
Não se embarcam mais escravos
Nos portos do Ceará
Preto velho, preto livre
Negro é o canto que virá
Trazendo luz e esperança
Bate maracatucá
Hoje eu sou Dragão do Mar
Dos ferros que acorrentaram
O preto na penitência
A ciência de nobre afro
Fez um agogô pra tocar
Loas de maracatu
Cantigas de liberdade
Hoje eu sou Dragão do Mar
No coração da cidade
Hoje eu sou Dragão do Mar |