Na casinha da Vila União, quase nada lembra o passado de Raimundo
Boca Aberta. Nenhuma fantasia antiga, nenhum troféu, nenhum recorte de jornal. Os amigos
falam da existência de um baú secreto, onde ele esconderia, a sete chaves, a história
de sua vida. Boca Aberta nega tudo. E nem mesmo se anima mais a assistir os desfiles de
maracatu. Fica em casa, em sua cadeira de vime, tentando lembrar como era mesmo que
terminava aquela loa de sua autoria, uma das primeiras músicas do maracatu cearense, que
começava assim:
"Cadê a chave do baú?/ Mariana tem / Você sabe, você viu?/ Eu não, meu bem".
A entrevista foi acompanhada pelo cantor,
compositor e pesquisador cearense Calé Alencar e pelo fotógrafo Fernando Sá.
O Povo Como surgiu a
idéia de trazer o maracatu para o Ceará?
Raimundo Boca Aberta Foi depois
que eu fui-me embora pra Pernambuco... (longo silêncio). Eu trabalhava aqui numa fábrica
de redes, ali na Major Facundo. Você sabe que eu sempre trabalhei em fábrica?
OP O senhor foi a
Pernambuco para trabalhar?
RBA Fui. Espere aí, escuta aqui:
(cantando) "Penerê, penerô/ Ai penera o milho/ Negro Salvador/ Ai penera o milho/
Negro Salvador/ Ninguém pisa o milho como Mãe Antônia/ Pisa a noite inteira e não dá
uma pamonha".
OP Foi lá em Pernambuco
que o senhor viu o maracatu pela primeira vez? Conte essa história...
RBA Meu patrão foi embora pra
Pernambuco com a família toda. Ele pelejou para me levar junto e no começo eu não
queria. Ele dizia: "Seu Mundico, vamos comigo embora pra Pernambuco".
OP Mas por que o senhor
resolveu ir depois?
RBA Com uma semana depois meu
patrão voltou pra me buscar. Ele me encontrou numa padaria, olhou pra mim e disse:
"Chegou a hora, você vai comigo". Nem mala eu tinha. Enfiei a roupa toda num
saco de trigo que eu arranjei ali mesmo na padaria, passei em casa, peguei tudo e disse
pra minha mãe que ia embora. E fui.
OP Em que ano foi isso?
RBA Era 1932... Nem me lembro
direito. Fomos de navio, um navio grande. Cheguei em Recife e vi aquela animação, o
pessoal dançando no meio da rua. Lá se dança o frevo.
OP O senhor passou quanto
tempo em Pernambuco?
RBA Três anos. Acompanhei três
carnavais seguidos. Tinha blocos, clubes, frevos e macumba. Esse último aí, a macumba,
é o maracatu. Eu acompanhava os blocos de sete horas da manhã até o final da tarde.
Depois eu ia pra casa, jantava e esperava o maracatu passar. Aí caía na dança até as
quatro horas da madrugada. Ia pra casa, tomava banho e voltava pra festa.
OP E como foi a criação
do Az de Ouro?
RBA Eu criei o Az de Ouro em 1936,
logo que voltei. Um dia, era perto do carnaval, saí do trabalho e vi as orquestras
tocando. Estava com dois amigos que tinham ido comigo tomar umas cachaças. Eu disse pra
eles: negrada, eu queria fazer um bloco aqui em Fortaleza, mas tinha que ser um
bloco bonito, uma coisa que eu vi lá em Pernambuco e gostei muito. Eles aí
perguntavam que tipo de bloco era. Eu respondi: Ma ra ca tu!
OP Quem participava do
bloco nesse primeiro momento?
RBA Era principalmente eu e o
Raimundo Negro. Fizemos o Az de Ouro durante 13 anos. No primeiro ano eram 42 pessoas. No
segundo, saímos com 80. Meus seis irmãos participavam junto comigo. Mas já morreram
todos, só sobrou o Clóvis. Os nomes deles era assim: Clóvis, Antônio, José... Mas
como é que pode eu não lembrar mais do resto? E como eu posso me esquecer também
daquela música bonita... Fui eu que inventei...
OP Não lembra mais nem um
trechinho?
RBA Peraí... (cantarolando)
Quando ele vem lá da Costa do Ouro/ E a Cambimba velha vem se balançando/ No trono
de reis coroado/ Vem se balançando é no balacombê/ Sou Az de Ouro/ Sou Az de Ouro/
Maracatu Az de Ouro enfezou/ Ele morreu mas ressuscitou/ Sonho de prata/ Sonho de prata/
Para o meu Az de Ouro/ A Rainha é a mulata/ A quem dei meu coração.
OP Que história é essa
de morreu e depois ressuscitou?
RBA Nós passamos três anos sem
sair. Faltou dinheiro pra fazer as fantasias. Durante esse tempo eu fui brincar lá no
Maracatu do Outeiro, o Dois de Ouro, que tinham inventado logo depois do Az de Ouro.
Depois do Az de Ouro veio o Dois de Ouro, o Leão Coroado, muitos outros...
OP E por que não tinha
mulher no maracatu?
RBA Era pra ser daquele jeito
mesmo. As mulheres brincavam nos blocos delas, nos blocos das moças. Aí a gente se
vestia de baiana. Mas agora já tem muita mulher no maracatu.
OP Com que roupa o senhor
desfilava?
RBA Desfilava vestido de negra
baiana, de saia grande e tudo mais. Eram quatro saias, uma embaixo da outra. E eu também
já fui Rainha do Az de Ouro.
OP Quem lhe botou o
apelido de Boca Aberta?
RBA Foi meu pai. Ele me chamava
para fazer as coisas e eu ficava lá, parado, só de boca aberta, aí ficou Raimundo Boca
Aberta.
OP Em Pernambuco, os maracatus
não têm a mesma característica de pintar o rosto. Isso foi idéia sua ?
RBA Foi. A tinta preta é de pó
de gás de lamparina misturado com vaselina. A gente fazia uma lata cheia e pintava o
rosto. Era para ficar parecido com as negras escravas, com as baianas, vindas da África.
OP Em que o senhor se
baseava para fazer as músicas do maracatu ?
RBA Umas músicas eu inventava,
outras eu ouvia e levava pro maracatu. Um dia eu passei na rua e vi uns meninos brincando
de roda. Era assim: "Cadê meu lenço que o boi babou?/ Tá no sereno, no
coarador". Achei aquilo bonito e levei pra gente dançar.
OP Muita gente considera o
maracatu uma coisa muito triste para sair em pleno carnaval. O que o senhor acha disso ?
RBA Maracatu não é triste, não.
As minhas músicas não eram tristes. Eu fazia para o pessoal dançar. Tristeza pra mim
foi só quando eu deixei de sair no Az de Ouro. Isso é que é tristeza.
Raimundo Alves Feitosa, o Boca Aberta faleceu em 25 de
julho de 1996, aos 94 anos. |