A nota mais original do carnaval carioca é o cordão, com a sua
seriedade lúgubre-grotesca, o caráter hierático-fetichista, próprio da raça negra, da
sua coreografia e da sua melopéia. Essa religiosidade primitiva das danças, dos cantos e
das atitudes do cordão mostra-se à primeira vista, como abertamente mostravam sua
obediência aos cânones, os baixos relevos egípcios, feitos quando o dogmatismo
sacerdotal obrigava a arte a produzir as figuras humanas com o busto de frente e os pés
de perfil.
No Nordeste
brasileiro não existe o cordão com seus índios empenachados e estandartes berrantes,
mas existe o maracatu, que tem o mesmo caráter sinistro, o mesmo canto monótono, a mesma
dança cadenciada, o mesmo tom de procissão, de enterro, de não sei qual cerimônia
achanti, sudanesa ou hotentote, transplantada para o Brasil e executada nas ruas de suas
capitais.
O maracatu,
porém, não tem índios. Todos os seus figurantes vestem de negras, de saia e cabeção,
à maneira baiana, mas com altos cocares de penas de ema à cabeça. Guarda melhor as
tradições africanas. Geralmente, é maior que o cordão. Consta de uns trinta
indivíduos, que formam em duas filas, conduzidos por um tocador de ganzá ou maracá de
folha de Flandres.
Ao chiado do
instrumento bárbaro, o maracatu atravessa as ruas, impenetrável e triste, dançando
arrastadamente, cantando em voz cavernosa versos curtos sem significação uns, outros
cuja significação se perdeu com o tempo, quase todos eivados de expressões africanas
adulteradas pela senzala, misturadas a palavras portuguesas. A dança, acompanhada pelo
chiar arrepiante do ganzá e pela melopéia sepulcral dos cantos, lembra a dança macabra
de esqueletos e defuntos em derredor dos cavaleiros bordados de aço das velhas gravuras
da Alemanha medieval. Recorda a fúnebre cerimônia de enterro de um chefe daometano,
quando as tribos já se aprestam para a matança ritual. As vozes trazem à memória o
dolente cantar dos guerreiros kakuanos, de que nos fala Ridder Hagaard. O negro, que
dirigia a canção, interrogava plangentemente:
Qual a sorte
sobre a terra
De quem teve de nascer?
O coro selvagem soluçava, ferindo o
solo com as pontas das lanças:
Morrer!
Morrer!
O guia do maracatu, saltando meio
acurvado e agitando o maracá, pergunta:
Fausta,
Fausta, cadê Mariana?
O coro, lúgubre, responde:
Mariana!
Mariana!
Torna o tocador, em voz soturna:
Que negra
safada só é Mariana!
As duas filas replicam:
Amarra a saia
com jitirana!
Pára diante das casas, recebe uns
níqueis, organiza uma roda e dança no mesmo compasso musical, plangente, langoroso,
hierático, africano:
Teia, teia,
teia de engomar
Vira de banda, torna a revirar
Teia, teia, teia do mar
Nossa rainha para coroar
Ninguém
sabe o que significam tais versos nem mesmo os próprios dançarinos; somente neles se
verifica uma reminiscência dos trabalhos domésticos dos escravos naquela "teia de
engomar, que vira de banda e torna a virar", acompanhado pelos gestos
característicos da tarefa das engomadeiras. As raças inferiores, que formam o substrato
da nossa arraia miúda vão se diluindo na formação da nacionalidade sem deixar um
traço de sua passagem. Sem palavra escrita e sem meios que só a liberdade dá,
encerrados numa sociedade que os digere pouco e pouco, estranhos quase a ela, mas nela se
integrando, não legarão aos vindouros um documento de sua vida mesquinha, nem um
dólmen, nem uma pedra sepulcral, nem uma página. Para que delas se perpetue alguma é
necessário que os coevos registem uma a uma as suas manifestações de toda a espécie.
E como a
observação de suas práticas singelas e tristes, dos seus costumes primitivos e
tradicionais, nos atiram através dos séculos até a rude e humilde humanidade dos
primeiros tempos, adorando a fatalidade, amando a terra, as plantas e os animais, polindo
o sílex, esboçando os rudimentos dos velhos cultos e das velhas civilizações.
O maracatu é
mais apavorador do que grotesco. Ao avistá-lo, os meninos correm, gritando com medo,
escondendo-se nas casas, tal o aspecto lúgubre dos robustos figurantes trajados de
negras, com os seus enormes ouropéis e a sua dança fúnebre. A Bahia tem dois similares
do maracatu e do cordão. São os ranchos e os candomblés, nos quais predomina a mesma
nota fetichista, tristonha e misteriosa.
No Rio, os
cordões têm nomes interessantes e que mais ou menos indicam o bairro de sua
procedência: Destemidos da Gamboa, Escovados da América, Flor de Oiro de Cascadura. Nas
cidades do Nordeste, segue-se a mesma prática. O maracatu traz o nome do arrabalde onde
se originou ou do indivíduo que mais contribuiu para sua formação: Maracatu do Outeiro,
da Apertada Hora, da rua de São Cosme, do Morro do Moinho, do Manoel Conrado.
Na vida brasileira, vão
morrendo vagarosamente todas as tradições da escravidão. Foi-se o Rei do Congo e
desapareceram Reisados e Candomblés. O cordão e o maracatu serão, talvez, as últimas
que desaparecerão porque o entusiasmo carnavalesco do poviléu ainda lhe dará vida nos
últimos estertores da raça que o produziu e que a comunidade dia a dia absorve. |
... Pelos anos de 1830 aqui na Fortaleza não se brincava o
carnaval propriamente dito: apenas o entrudo (de introitum, entrada, da Quaresma).
Brinquedo grosseiro a que pouca gente se entregava, mas, apesar disto, o jogo era forte.
É tradição
que Ferreira Boticário, por ser doido pelo entrudo, mandava colocar uma grande tina
dágua à sua porta e molhava a quem passasse. Com isto ria a bom rir. Se algum dos
agredidos se revoltava contra isto, era agarrado e trazido para junto da tina, a fim de
receber o batismo.(...)
Infeliz da
negra que aqueles luperci encontrassem na rua: em um ápice ficava branca de neve,
tanta farinha de trigo lhe jogavam. Sujavam-lhe o vestido. A pobre que fosse, enfurecida,
lavar a sua roupa e limpar a carapinha de um amaldiçoado empoamento. Invadiam as casas
das famílias, onde não respeitavam nem a quem estivesse doente na camarinha.
A estes,
porque os não podiam molhar, pintavam as faces com zarcão e sujavam roupas e redes com
os pós negros... Já em 1870 o jogo do entrudo era menos grosseiro: em vez de bacias
dágua e de batismo usavam-se as laranjinhas de borracha ou de cera, com água de
cheiro.(...)
Outro grupo
que aparecia uma vez ou outra era o dos Maracatus. Formados só de homens, vestidos de
mulher, saias brancas e cabeções de renda, traziam o corpo e o rosto pintados de negro.
À simples vista pareciam africanos. Não dançavam. Andavam lentamente, pelas ruas. Assim
vimos passar, algumas vezes, estes precursores das famosas Marretas. Acompanhados de
reco-recos e de maracás, cantavam:
Aruenda
tenda cadê ioiô
A nossa rainha já se coroou
Traduza
quem puder o primeiro verso, na certeza de que esta cantiga não fica muito aquém da
Galinha Carijó, tão aceita hoje e repetida, mesmo nos nossos salões elegantes. Havia
uma outra espécie de Maracatus, imitando índios, se apresentavam com tangas e cocares de
penas. Marchavam num passo de dança selvagem, saltando para todos os lados, abaixando-se
e levantando-se bruscamente. Lembravam os Convulsionários de 1727, que achavam grande
prazer nesses movimentos violentos. (...)
Pelo carnaval
de 1918 muitos sócios do Clube dos Diários e suas famílias se reuniram próximo à
estação dos bondes e, fantasiados, queimando fogos de bengala e gritando muito, vieram
sobre os duros e incômodos carretões da Light até a sua sede, na rua Formosa... Daquela
data até 1935 o nosso carnaval de rua quase se limitou a um corso pela Praça do Ferreira
e ruas adjacentes: muitas serpentinas e confetes, crianças fantasiadas, muito alarido e
raros papangus... |